A hegemonia do amor romântico

A hegemonia do amor romântico

Por Jessica Martinez

Quando nos círculos feministas e queer falamos de tornar visíveis as formas como amamos e escolhemos amar, falamos da necessidade de rompermos em sociedade com a hierarquia de sentimentos e pessoas a que o capitalismo nos obriga.

O capitalismo impõe uma hegemonia onde o romance é a última prioridade das nossas vidas: dado o tempo livre que é escasso e raro, vivemos numa sociedade que nos impinge uma ordem de importância nas nossas vidas, no qual xs pareceirxs merecem prioridade e atenção limitada do nosso tempo s, e que as amizades ficam em segundo plano. O casamento, vê-se como a ”conclusão” de um processo de “enamoramento” que dará início à ”família”, oferecendo inúmeros benefícios às partes envolvidas, desde vantagens financeiras a status social. A título de exemplo, um casal que esteja junto há 10 anos mas que não esteja casado é visto como uma união mais instável do que um casal que esteja junto há 2 anos e tenha casado mais cedo. Na sociedade capitalista, esta segunda forma de organização social não é somente vista como desejável como é tida como obrigatória.

Naturalmente este processo exclui muitxs de nós que não somos nem monogâmicxs, nem heterossexuais, nem queremos que o amor se resuma a uma ”vida de casal”. Onde fica assim o espaço para relações que fogem à norma? Relações não-monógâmicas e poliamorosas; relações românticas assexuais; relações homoafectivas; relações queer-platonic; relações para as quais não temos nome pois são tão bonitas e complexas que não cabem em caixa nenhuma!? Como desfazer as caixas que criámos dentro do sistema capitalista em que vivemos?

É um trabalho difícil, desembrulhar essas caixas e espalhar amor quando parece que remamos contra a maré. Quando as nossas relações são desvalorizadas e olhadas de soslaio por fugirmos orgulhosamente ao padrão. Por isso faço um convite: Pensemos em todas as possibilidades de nos darmos aos outrxs, e estejamos receptivxs a aceitar as pessoas que conhecemos sem lhes colocar rótulos ou papeis pré-definidos. Aceitemos a beleza de não saber como cada relação vai evoluir e que o amor é muito, muito mais do que uma relação de casal hetero ou homonormativa. Que cada relação segue um guião diferente e imprevisível. Convido-vos a reconhecer que existem não-monogamias não necessariamente sexuais e que o amor romântico nem sempre é sexual, que a intimidade nem sempre envolve sexo; que a não-monogamia consensual é uma forma de estarmos mais receptivxs a aceitar o amor em qualquer forma que ele apareça nas nossas vidas.

Reconhecer que os laços platónicos são tão legítimos como quaisquer outros e não pressupõem mais ou menos amor.

Quero um amor livre sem barreiras e preconceito. E quero um amor que não exclua ninguém. Que em 2017 façamos a opção consciente de nutrir, regar e cuidar das pessoas que temos nas nossas vidas com a prioridade que cada uma merece. Que os nossos corações cresçam em espaço e em carinho.

Em suma, resgatemos o amor do capitalismo. Que o amor seja subversivo e revolucionário. O meu é.